Sei que já se passaram da hora que meus olhos deveriam ter fechado e minha mente deveria estar em sonhos dos quais não me lembraria qualquer coisa. Levanto num arranque, mas continuo sentado. Olho assustado à minha volta, estranhando o quarto, os odores do lugar, o travesseiro sem um textura definida e a cama que quebrava minhas costas de tão pedregulhosa (e, acredite, achava que alguém conhecido teria morrido desse mal). Talvez tenha me corrido um leve sentimento de medo. Levantei de vez, fechei a cortina fina que apenas embaçava a luz.
A sede cortou-me a garganta. Pego o telefone e uso-o de lanterna (pois não me encontro num estado heróico de enfrentar escuros), caminho de olhos semi-abertos até a cozinha. A luz que acendo não é a da cozinha, mas a da área do lado de fora, melhor pros meus olhos que querem e não querem dormir. A geladeira, meio bagunçada, me esconde uma garrafa meio congelada com água. Quebro o gelo que me impede de afogar a maldita da sede, e mato-na com dois copos duplos. Corro com a luz, fingindo ter a tomado dos Deuses, e volto pro lugar (in)comum. Deixo todos os monstros pra trás, com um grande (mas quieta, não quero acordar o resto dos cidadãos da casa) batida da porta. Fecho a do banheiro, desconfiado.
Sento-me finalmente na pedra-cama. Acabo de lembrar que o ano passado deus seus últimos suspiros há algumas horas, e chorava nos meus ouvidos o novo ano. Corre algumas imagens, alguns nomes, perfumes, gostos, vozes... tudo me parece um rito de invocação à alguma melancolia. E sim, bem sucedido! Juntei cada um dos elementos que me vieram, criei um fantasma, uma imagem, dum alguém que encontrava-se a milhas dalí, ou não. Fecho os olhos e os reabro. Parada na minha frente estava a sombra, vívida, com um sorriso meigo e uma postura forte que fez correr, silencioso, o estige pelos meus olhos. Tocou-me os cabelos, olhou-me nos olhos e passou os dedos por minhas bochechas, tirando-me as almas prantosas do rosto. Divagou sobre meus medos um por um numa voz melodiosa, perdoou minhas faltas e falou do amor que sentia. Tocou minha mão - estremeci - e a levou ao peito. Pediu-me que sentisse o que sentisse, que batesse meu coração na mesma melodia, que lhe falasse do que tinha escondido no meu peito. Saíram da minha boca as palavras mais doces, inéditas, que pertenciam apenas aos ouvidos daquele que me ouvia. A luz do sorriso que abrira derrotara todo meu medo e escurosque me rodeavam, me fizeram livre, alvo. Colocou as mãos nos meus joelhos e enlaçou os lábios nos meus - senti-me voar, completo, único. Pude dançar com a lua e brincar de roda com as estrelas, abraçar Deus.
Abri os olhos, e senti no ar o rastro do perfume. Findou-se o sonho. Ficou-me a melancolia. E o vazio. E a saudade. E mais uma série de "e" que encheriam três planetas. Me restava deitar e pedir sonhos coloridos (não daqueles que eu me esqueceria no outro dia), feito mil galáxias, brilhantes feito seus olhos e as estrelas, único feito você.
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