sentado na minha cadeira, vendo o tempo e tentando acertá-lo com um estilingue, tropeçou pelos meus pés uma menininha, carregando uma bolsinha dessas coloridas e em formato de bicho. Sorri, mas a garota, assustada, chorou deparou-se com um rasgo na bolsa. Ri baixinho da cena e da tragédia cômica do fim daquele bicho, rasgado e sujo pelo chão. Gracejaram-me de volta as sombras que dele saíram, cobrindo-me a vista e acertando todas as cores em cheio - me saludou, feliz, o vazio. A mocinha levantou-se, assustou-se com o escuro e parou de chorar. Sobravam eu e ela naquele espaço, onde as vistas só me viam e lhe viam - senti falta da luz, do horizonte dos eventos, veio o sufoco. Mas engoli a seco o meu medo, disse para que o deixasse de lado e ela abraçou aquele bichinho rosa - agora decapitado de alguma forma. Perguntei-lhe o seu nome.
- Pandora.
Pulou em meu colo, me confortou com um abraço, olhou nos meu olhos. Parecia saber que o caos tocavam-me os cabelos e os dedos, me faziam cosquinhas que doiam pelo corpo e tampavam-me os olhos, num pique-esconde sinistro: um velho como eu não sabia mais brincar com o escuro, sem poder ver os brinquedos e sem os óculos emoldurados no rosto. Não hesitou; sorriu o seu melhor sorriso de leite e mexericou na bolsinha. Tirou uma balinha pequetita, verdinha que só, ofereceu sem pensar em si.
- Tó, tio!
Não sabia como lidar.
- O tio tá de dieta.
Brinquei um pouco mais com fato de estar acima do peso, diferentemente dela. Disse-lhe que ficasse com o docinho, que ela comeu com gosto. Sorriu novamente. Balançou as mãozinhas em adeus, e num piscar das pestanas, sumiu.
E ficou lá, o eu velho, sentado numa cadeira, cuja única companhia era uma bolsa de bichinho de pelúcia com a cabeça presa por um pedaço. Rodeado de medos brincalhões - de tal qualidade que foram logo se esconder em tal bolsinha de criança - que nunca acreditei que voltariam. Sem saída aparente, negando a porta enrolada em plástico verde desgastado, tentei não enlouquecer; caí, feito a menina e rasgaram-me os medos, como aquela pelúcia no chão sujo.
Fim
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