quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

 - As perguntas ficaram. 
 As palavras saíram pela fumaça que correu da boca. Ela fumava, de olho na corria daquela cidade que não era grande. Mas a vista da janela era bonita, pelo menos. 
 Ele revia (quiçá pela última vez) os livros raros que ela colecionava. 
 - Nunca soube desse. Foi difícil de conseguir, presumo. 
 - E foi. 
  Recolou. - E essas partituras... esse piano?
 - Meus. Meus. Não fuja.
 - Não sei lidar com palavras. 
 - Sabe. Sabe bem, um pouco por demais. Mas me responde: sabe lidar com si? 
 - Sim. Te digo mil vezes que sim.
 - Mente. Te conheço a fundo. Não sabe tão bem quanto eu te conheço, meu bem. 
  Virou-se. Olhou nos olhos dele, baforou a fumaça, essa que dançou, subiu e desfaleceu. 
 - Machuquei por não me conhecer? Machuquei por ter medo? 
  Ela deu um daqueles sorrisos bestas, mas significativos de quando as palavras ficam pesadas.
 - Fugi de mim mesma por ti. 
 - Vali por isso? 
 - Não tanto quanto os livros. - Andou até ele. Os saltos estalaram pelo chão velho do apartamento velho. - E você é como eles... difícil de se encontrar. Antigos e ainda fortes. Mas deliciosos de se virar as páginas. E você tem várias delas...
  Ela tragou, e tornou o rosto dele branco de fumaça. Passou os dedos de pontas vermelho no rosto frágil dele, olhou-o nos olhos escuros.
 - ... e várias capas. Ou melhor, duas. Ou três. 
 - Compara-me com livros...
 - ... tens tudo que eles têm. Histórias, boas ou ruims, uma introdução, meio, um clímax, e uma conclusão. E pensa, meu bem. Se te comparo a eles, é porque lhe estimo. Mas canso-me de os ler duas ou três vezes.  
  Deixou o toque dela. Parou na frente dum quadro de um artista qualquer, se fosse verdadeiro ou falso pouco nos importa. 
- Tenho tantas histórias? 
- Sim, e como as têm! Mas a tinta é forte... e pouco consigo apagá-las. Confesso, tentei. Tentei, tentei... - Mostrou as mãos, de palmas levemente sujas de um encardido preto-nanquim. - E a tinta nunca saiu. Vê? Me pertencem mais que a você, como eu mesmo as tivesse escrito. 
- Não me culpe. Culpe o tempo; amaldiçoe o vento se quiser. Não tive escolha. 
  Ela pegou o mesmo livro que as mãos dele tocara. Lera a primeira página. Riu baixinho.
- Desejei que meu nome tivesse Gutenberg. Quis te reescrever. Te ter junto de mim.
- Mas você está. Basta querer. Chamar meu nome, escrever-me.
- Não me basta. Quero você. Das suas páginas até seus erros de edição. Passado, presente, ou futuro: quero ser dona do teu tempo. Quero você na minha estante, e não na mão de um sebo qualquer. Cuidarei das suas folhas: restaurarei papel por papel se preciso. 
- Mas és ambiciosa!
- Quis reescrever teu livro em novas folhas, começando do presente. Mas como, como o faria? Que palavras usaria? E o que faria das perguntas que ainda tenho, malditas?
- As esqueça. Trançaria as palavras que te dei, terias minha pena.
- Seria difícil. Traga-me água do Letes e pensaremos. Sou uma mera colecionadora de livros, não uma deusa. E a tinta? Cortará minhas mãos pra não mais as veja e esqueça do que fiz? 
- A tinta me pertençe. Te sujaste porque o desejou.
- E hoje quis ser uma pessoa diferente. 
Ela jogou o livro no chão. Deus passos rápidos-longos até a janela. 
- E se eu não existisse? Se deixasse de existir?
- Me faria sofrer. E minhas páginas não teriam os floreios que tem. Ou perderiam o brilho.
Ela colocou parte do tronco pra trás, olhou para o céu.
- Mas doi. E o azul me chama. Me grita. Queria não ser dessa forma. Queria só ser feliz... mas as imperfeições de algumas páginas e das rasuras que eu mesma fiz me entristecem. Diga obrigado pra ti mesmo, as suas digitais também se estamparam. "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". 
- Não olhas o presente...
- Você não passa de um medroso. És um medroso hoje, foi um medroso ontem. Sempre serás um medroso. - Deixou de olhar pro céu, fitou-o nos olhos. - Ou responda-me, sempre fui uma mulher corajosa, uma espartana?
- Culpa-me pelos meus medos passados. Lembras da linha do tempo que me disseste?
- Faz sentido. Mas terias sofrido menos, e minhas mãos não teriam se manchado de tinta.
- Não teria te conhecido e ganhado os beijos teus sem eles. 
- Pouco me importa. Não vês que quero que seja feliz comigo ou longe de mim? E que desejo que tivesse sofrido menos do pouco que sofreu? Sofrimento no passado ou no presente, ainda é sofrimento. 
  Ele não teve palavras. Abaixou a cabeça, e ela suspirou nos ouvidos do homem.
- És meu livro de páginas de ouro. Sou tua guardiã. Não me temas... revela-me quem tu és e de ti cuidarei. Prometo não me assustar com as palavras que posso ler, mas não prometo não machucar-me com elas. Conheço de ti dois lados. E deles queria que fosse um. Que não me mostra ambiguidades, mas palíndromos bobos. 
Ele abriu a boca. Ela impediu-o de proferir palavras.
- Não me faça deixar minhas palmas escuras. É isso que quer pra mim? E quem deves olhar o presente sois tu: fiz de tudo pra te ter na minha coleção. 
- É minha essência, isto de ser ou não ser... viver da dúvida. Não significa que não te amo, mulher. Mas faz parte de mim.
- E de mim.
- Quero cumprir as promessas que lhe fiz, mas tenho o meu tempo. 
- Esperar-lhe-ei. Mas viverei de dúvidas? De incertezas? Ou te terei uno, único? 
Ele não respondeu. 

E o silêncio vagou...

E o tempo parou... 

 - As perguntas ficaram. 




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