terça-feira, 1 de março de 2011

Testamento.

Me despeço, senhores, senhoras. A orquestra chegou na hora de parar, os dançarinos pararem de trocar passos e as contraltos cessarem suas notas. Hora de dobrar-se perante todos vocês - que fielmente me assistiram -, agradecer e baixar as cortinas. A valsa tem suas últimas pausas, depois de tantos floreios e colcheias...

Mas o show tem de continuar! O maestro, que vos fala, admira o silêncio: notas únicas que ecoam no teatro. Preparo-me para o grande ato. Subir cada degrau dessa escada como uma oitava a mais, e o que me esperava eram os bemóis que rangeriam a corda com a queda da subida.

- Deixo aos amados o meu sofrimento, meu tormento que vos farão alegres, e espero que chorem lágrimas negras de culpa! Aos odiados deixo o meu amor, que nunca forte foi, mas dará amargura e fortemente estilhaçará vossos corações. Aos poucos amigos deixo a minha confiança, também pouca e dada a um -que mal percebera vossa forte presença, senhores!-, que permanecerá em vossas mãos como prova de meu verdadeiro afeto. E deixo a partitura, minha partitura, suja e floreada partitura nas mãos daquela que amo como a terra ama a chuva, que dá vida aos campos que vivem-e-morrem. E que as musas tornem esse vasto, corrompido, machucado e negro corpo em estrelas cadentes, para que os tolos aprendam a sonhar e desejar, para que a realidade os corte com sua espada divina, e o tempo os torne copos da melancolia.

- Que a corda cante, sustenidos meus!







... e agora pairo, por este palco, senhores, agradecendo-lhes pela visita, em minha corrente de memórias e sonhos, que eu próprio teci.

Nenhum comentário:

Postar um comentário