domingo, 7 de outubro de 2012
infantil
A fumaça da cidade entristecia o pobre garoto. O som de vai-e-vem estragava as melodias felizes na voz da mãe, dessas lembranças que a gente sente que tem, num lembra-não-lembra. A vó, com que vivia, não dizia palavra alguma e, ela, ao contrário do sorridente garoto de cabelo rapado e pele escura, tinha grande apreço pela cidade. E com o cabelo redondo que tinha. Desses dias qualquer, trocava a cor dos amados fios enraizados na cabeça redonda, na varanda. E o menino? Irritava-se com a cidade, como sempre. Porém, brilhara algo dentro do dia cinza: um frasco vermelho luzia com o sol. Vira antes a vó manejando-o, tornando os cabelos secos em molhados, com nuvens que saiam de tal frasco. Ele, esperto que só, aproveitara a oportunidade de colorir o cinza. Talvez um gênio o desse três desejos. Correra até o objeto desejoso e um toque tirou o cinza: nuvens! Sentia-se filho de deus, colorindo a vidinha qualquer dele com grande e fofas gotas de água. Pensou na varanda e na avó, na cidade, pra nestes testar o novo poder. A velhaca carrancuda de cabeça redonda tinha um avental improvisado de saco preto, reclamava da vida enquanto admirava a cidade. Foi-se o garoto, rodopiando suas nuvens e fazendo chover em tudo, pra que o cinza se fosse e crescesse o verde e brotasse os arco-íris. Nunca vira nuvens tão bonitas - e eram todas dele. Mas a avó se tornara mais cinza, tal como a cidade - esquecera o menino das aulas de arte, quando ouvira que o cinza ainda é cinza com o branco. E correu a avó atrás dele, desengonçada, e ele, brasileiro que era, não desistia e continuava criando nuvens infinitas. Mas o frasco lhe traira, findou-se a água. E a velha lhe toma o vermelho. Uma palmada nas mãos. E lágrimas dos olhos, que nem por si mudaram o cinza.
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