domingo, 7 de outubro de 2012

de meia-idade, sapatilhas, frio e valsa

A última nota da música soara. A professora, correta com os toques do relógio, já dizia que em minutos a academia fecharia. Mas ela, uma dessas mulheres de meia-idade, tomava a nota Horácio e seu carpe diem. Os passos de cada aula eram repetidos até as sapatilhas gastas apertassem mais os pés — fazia parte do processo, junto das quedas e torções, graças à dificuldade deles. Mas ela sentia que tal dedicação era necessária. Não queria ser a melhor aluna pra méritos ou campeonatos, mas pra si mesma. Treinava só: decepcionava com os treinos de duplas, pois os homens, desengonçados e brutões, machucavam mais os pés que as sapatilhas. Mas esforçava-se, dava o (possível) melhor e fingia sorrir, confiante.
Classificava cada valsa como diferente, e jurava saber passos diferentes pra cada. "Sim, valsas diferentes merecem passos diferente!". Mas no fundo, todas iguais. E de igualdades e igualdades, combatia o desgosto por cada uma, e punha zelo. E escondia seu medo, mas sua sina, que jogaria fora seu esforço, um dia, talvez — pra ela o salão sempre vai estar vazio, e seus passos sempre pareceriam de pés esquerdos: dançaria, no fim, sozinha.

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