quarta-feira, 5 de agosto de 2015

queen of peace/long & lost

é sentado aqui, só, na tua casa, que lhe escrevo.

É no lugar que costumamos nos tornar etéreos pela fumaça que sobe das nossas palavras, das cinzas dos nossos cigarros e dos beijos quentes que você me dá que hoje, na tua ausência - mesmo que pequena - que divago. É não só sobre mim que penso: mas sobre você e sobre as mil desculpas que lhe devo.

Esse cigarro que já se torna marca nossa me faz questionar. Vendo o vazio da sua casa, das vasilhas sujas e da xícara de chá que ficou onde deixei pela manhã - ainda meio cheia, meio vazia - que me parece um espelho meu; sei que me frequentas, mas sei que apesar disso ainda sou, em partes, oco, de lacunas bem visíveis. Daí nascem as desculpas: vivo num crepúsculo eterno, sem luz e cheio de tempestades e santos, retrato duma guerra que terminou e deixou feridos, feridas abertas. Lutei outras guerras, sabes disso, e delas só se salvaram as dúvidas, o medo e as sombras. E você, meu marinheiro de primeira viagem, tem de aguentar tantos temporais e marés ruins me encantando tua postura de queixo elevado, fingindo nunca se machucar e as suportando com maestria de capitão.

Peço que aguente nesse navio - que como sempre diz, que não foi feito para afundar, mas sim para velejar: fica comigo, mesmo que eu seja promessa de naufrágio. E me desculpa, desculpa por não ser a terra firme que merece, nem o porto seguro que te salva. Aguenta: usa tua luz, constroi em mim teu farol, tira-me desse lusco-fusco chato, que deixa a gente em tanta maresia. Cresce, deixa essa história de ser marujo de lado, vira logo o meu capitão e me socorre desse campo de batalha sujo de memória de outros tempos, fazer um novo refúgio, novos contos da vida, nossa ilha.

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